A
partir do século passado, a forte vocação das
bromeliáceas como plantas ornamentais foi descoberta e se tornou
um fenômeno mundial. Segundo a Sociedade Brasileira de Bromélias,
como plantas ornamentais alcançam bom preço no mercado
e, por isso, são colhidas predatoriamente. E, com isso o extrativismo
se tornou largamente empregado para abastecer o crescente mercado de
plantas ornamentais nos grandes centros. Isso contribui para a extinção
de várias espécies. No Município de Santa Vitória
do Palmar ao longo dos anos, as bromeliáceas nativas têm
sido vítimas das devastações de seus habitats naturais,
pois formam verdadeiras cercas vivas nos campos produtivos, sendo, portanto
retiradas para facilitar a plantação orizícola,
aumentando assim a área de produção. São
também
perseguidas pela acusação de facilitar a proliferação
de insetos responsáveis pela transmissão de doenças
como a dengue e atrair animais como cobras e sapos.
As bromeliáceas são universos miniaturizados, onde orbitam incontáveis
seres vivos. São atraídos por elas pelas exóticas rosetas
e, principalmente, pelos tanques, onde os detritos orgânicos e a água
não atingem o estado de putrefação. Os tanques, na verdade,
funcionam como verdadeiros lagos, de modo que, em certas épocas, as bromeliáceas
podem representar a única fonte de água disponível num raio
de muitos quilômetros. Por isso, em suas rosetas podem ser encontradas
as mais variadas formas de vida. Desde seres microscópicos (bactérias
não patogênicas), protozoários, algas e fungos, até algumas
plantas floríferas, passando por vários tipos de artrópodos,
e chegando até aos crustáceos, anfíbios e répteis.
Não raro, dependem das bromeliáceas, animais de grande porte como
algumas aves e mamíferos (LEME & MARIGO, 1994).
No ambiente natural, as bromeliáceas representam um importante elemento
de manutenção da biodiversidade, pois ocupam terrenos estéreis
que outras plantas rejeitam e contribuem com biomassa, enquanto sua arquitetura
foliar serve como elemento de sustentação da vida. Por outro lado,
quando a bromeliácea é trazida para o meio urbano, vem com todo
seu potencial de sustentar a vida, o que acaba gerando desequilíbrio ecológico.
Além disso, a introdução aleatória de espécies
exóticas (não característica da região) pode levar
ao surgimento dos chamados híbridos naturais, com consequências
impossíveis de serem medidas, mas certamente danosas à estabilidade
ambiental. Também são economicamente importantes como
o Ananas microstachys, Bromelia antiacantha e Tillandsia usneoides
que possuem propriedades
medicinais.
Os objetivos do trabalho foram caracterizar a Família Bromeliaceae (quanto
ao habitat, hábito, fenologia, reprodução vegetativa, polinização
e dispersão); investigar a importância ecológica e econômica
das espécies existentes em Santa Vitória do Palmar e determinar
as espécies em perigo de extinção no Rio Grande
do Sul.
A família Bromeliaceae pertence ao Reino Vegetal, a divisão Magnoliophyta,
a classe Liliopsida, a sub-classe Zingiberidae e a ordem Bromeliales. Abriga
em torno de 56 gêneros e cerca de três mil espécies. De acordo
com Silva (1999), a família foi estabelecida em 1789, por A. L. Jussieu
que se valeu da denominação “Bromeliae”. Em 1805, J.
H. Jaume Saint-Hilaire (1772 – 1845) foi o responsável por torná-la
uma família. Com exceção de uma única espécie
(Pticairnia feliciana), descoberta na África ainda em 1937, todas são
originárias das Américas do Sul e Central e das regiões
sulinas dos Estados Unidos (JOLY, 1998). De acordo com Tardivo & Cervi (1997),
o Brasil é um dos três mais importantes centros de diversidade genética
das espécies de bromeliáceas. Segundo Silva (1999) no Brasil as
bromélias são conhecidas pelo nome indígena de caraguatá,
craguatá ou gravatá. Segundo Tardivo & Cervi (1997), o Brasil
abriga cerca de 40% das espécies catalogadas, com vários gêneros
endêmicos encontrados principalmente na Floresta Atlântica, ecossistema
que abriga grande diversidade e quantidade de bromeliáceas. Porém,
ocorrem também nas restingas, nos campos rupestres, nos campos de altitude,
na caatinga e em algumas regiões da Amazônia e do Pantanal do Mato
Grosso (LEME & MARIGO, 1993). Todas as bromeliáceas possuem a mesma
forma de crescimento. Folhas formando uma roseta, que podem ser verticais ou
achatadas e que, em alguns casos, assumem a forma de uma espécie de copo
central, que retém água. A maioria das espécies de um mesmo
gênero tem características e exigências semelhantes. Gêneros
diferentes requerem diferentes variações de luminosidade,
rega e substrato.
O nome da família origina-se do grego Bromos que significa Manjar (comida
saborosa). Compõe uma das mais adaptáveis famílias de plantas
do mundo por terem uma impressionante resistência para sobreviver e apresentar
infinitas e curiosas variedades de formas e combinações
de cores.
Em todo o caso, com um número tão grande de espécies, não
chega a surpreender o fato das bromeliáceas serem encontradas em situações
climáticas diferentes. Na verdade, do Sul dos Estados Unidos para baixo,
nascem tanto nas praias brasileiras, quanto nas alturas da Cordilheira dos Andes.
Segundo Silva (1999), resistem a temperaturas próximas a 0°C, assim
como habitam também areias e rochas em áreas de temperaturas elevadas.
Sobrevivem tanto nas florestas úmidas, quanto em áridos desertos.
Tanto em árvores, quanto no chão. Como resultado, variam enormemente
de aparência, tamanho e floração.
São monocotiledôneas herbáceas (JOLY, 1998). Segundo Silva
(1999), apresentam as mais diversas cores, formas, tamanhos, movimentos e texturas.
As folhas são densamente embricadas na base, dispostas em rosetas. São
grossas, lanceoladas, largas, de bordas geralmente espinhosas, recobertas por
tricomas ou escamas peltadas, que são pêlos epidérmicos modificados
(JOLY, 1998). Nem sempre fácil de se ver, necessitando com freqüência
uso de lentes. Há casos, contudo que os tricomas estão em tão
elevado número que a folha apresenta um aspecto prateado (caso de muitas
Tillandsias). As folhas têm bainhas sempre livres, nunca formam um tubo,
embora muitas vezes as margens das bainhas sobreponham de tal maneira que formam
uma roseta que acumula água. De acordo com Silva (1999), a base das folhas
costuma ser mais larga do que a parte médio-apical. Quanto mais alargada
a bainha foliar, mais a planta torna-se capacitada para acumular água
das chuvas e detritos orgânicos. No conjunto, as bainhas de uma planta
guardam desde alguns cm³ de água até 4.000cm³ (REITZ,
1983). Além de guardarem água e detritos vegetais em decomposição,
são um ambiente biológico para uma variadíssima fauna, muitas
vezes unicamente existente nas bromeliáceas. De acordo com Reitz (1983),
na maior parte dos gravatás epífitos, as bainhas desempenham um
papel importante na alimentação da planta. São providas
de pêlos escamosos que absorvem o alimento. Os pêlos escamosos, comumente
chamados “escamas lepidotas” estão fixos, às vezes,
em depressões de nervuras, como, por exemplo, em Bromelia, Ananas, Dyckia,
etc. e, na maioria das vezes, em uma superfície plana, por exemplo, em
Tillandsia e Vriesea. A maioria das bainhas são lisas e inermes com exceção
de algumas, por exemplo, Dyckia reitzii, cujos espinhos da lâmina foliar
continuam pela bainha reduzindo-o em tamanho até ficarem simples dentes
e desaparecerem completamente. A coloração da bainha é muito
variada nas diferentes espécies. De acordo com Silva (1999), apresentam
plantas com folhagens exóticas e brilhantes que parecem envernizadas.
A cor das folhas é, em geral, verde ou verde-acinzentada em virtude do
revestimento com escamas brancacentas, especialmente em Tillandsia. Espécies
como Ananas bracteatus, tomam cor avermelhada quando expostas ao sol intenso.
Outras como Tillandsia stricta, aparecem verdes ou pouco pintadas de roxo quando
vegetam na sombra, mas ao sol, algumas vezes, se tornam densamente pintadas,
outras completamente roxo-avermelhadas. Ao desabrochar da flor, as bromeliáceas,
em sua maioria tingem suas folhas de belíssimo colorido. Algumas bromeliáceas
possuem poucas escamas em cada folha, enquanto outras contêm várias,
formando faixas de cor cinza. Em muitas espécies de Tillandsia, por exemplo,
a superfície da folha é quase completamente coberta por estas películas,
conferindo à planta uma aparência escamosa com tons prateados. Bromelia
antiacantha apresentam na época da floração, pelo menos
as folhas interiores róseo-avermelhadas. As nervuras das folhas são
sempre longitudinais. As sépalas são sempre diferentes das pétalas.
A constituição das raízes das bromeliáceas é muito
firme. Segundo Silva (1999), são quase sempre reduzidas estrutural e funcionalmente.
Segundo Reitz (1983), em Vriesea scalaris observa-se raízes de 9cm de
comprimento, em Tillandsia dura de 11cm, em Billbergia alfonsi-joannis de 15cm
de comprimento e 3mm de diâmetro, em Vriesea platzmannii 18cm de comprimento
e 3mm de diâmetro e em Vriesea gigantea de 21cm de comprimento e 6mm de
diâmetro. De acordo com Joly (1998), na maioria das bromeliáceas
epífitas as raízes servem principalmente como elemento de fixação,
nutrindo-se a planta com detritos vegetais e água acumulada nas rosetas
das folhas ou condensada da atmosfera. De acordo com Silva (1999), nas espécies
terrestres sua constituição é diversa agindo também
como órgãos de absorção. Em todos os casos, porém,
sempre há presença de pêlos radiculares. Genericamente pode-se
afirmar que não há bromeliáceas sem raízes. Casos
raros há em que, principalmente em Tillandsia aeranthos, existe pouca
ou nenhuma raiz. Mesmo T. usneoides que em estado adulto é geralmente
apresentado como sem raiz já se observou com raízes evidentes.
A fixação das raízes a seus suportes é realizada
pela secreção de um mastique pardacento que em contato
com o ar, endurece imediatamente e fixa a planta (REITZ, 1983).
As bromeliáceas apresentam na maioria dos casos, caule muito curto e torcido,
sempre, porém, demonstrável, e densamente coberto com folhas formando
uma roseta ou tufo. Segundo Silva (1999), o caule é via de regra imperceptível.
Devido a essa composição tornou-se comum denominá-las de “acaules”,
em descrições botânicas. Existem, no entanto diversos casos
em que o caule é estirado e, pelo menos em grande parte, coberto por densa
folhagem, como, por exemplo, em Tillandsia dura. A parte posterior, como na espécie
citada, não raras vezes é desprovida de folhas por até alguns
decímetros. Tillandsia usneoides apresenta ramos muito finos e divididos
em poucas folhas. Dyckia encholirioides e D. marítima deixam atrás
da roseta grossos caules de mais de um metro de comprimento, cobertos com restos
de bainhas foliares. Nidularium bilbergioides possui caule trepador; trepa até três
metros de altura ao longo das árvores e rochas com o auxílio de
ramificações de crescimento vertical. Há rizomas perfeitos
(parte subterrânea do caule) nos gêneros terrestres como em Pitcairnia,
Billbergia, Dyckia e alguma Aechmea. Estolhos só existem em Bromelia antiacantha
e B. balansae. Estes alcançam, às vezes, mais de um metro de comprimento
permitindo a formação de grandes colônias impenetráveis.
Nos gêneros, que ora são arborícolas, ora terrícolas,
como por exemplo, Billbergia, quase só se notam rizomas no último
caso. A continuação do caule é denominada escarpo, que constitui
um eixo mais ou menos bracteado intercalado entre a roseta foliar e a ráquis
da inflorescência propriamente dita. As menores das bromeliáceas
brasileiras são espécies de Tillandsia, como T. stricta e T. recurvata, às
vezes, chegam a ter menos de dez centímetros de altura. As mais altas,
sem dúvida, são Vriesea gigantea e Dyckia maritima, que no litoral,
ultrapassam os três metros de altura (REITZ, 1983).
Segundo Rizzini & Mors (1995), as inflorescências são amplas
e providas de cores vivas. Segundo Joly (1998), a inflorescência pode ser
terminal capituliforme densa, espiciforme alongada ou variadamente paniculada
(ou como Tillandsia usneoides, com flores isoladas, laterais) e geralmente protegidas
por brácteas vivamente coloridas. A inflorescência é sempre
indefinida, pois o eixo sempre se prolonga além das flores, geralmente,
em insignificante apêndice (REITZ, 1983). Pode ser simples, composta ou
ramificada. A simples é racemosa, quando as flores são pedunculadas,
como por exemplo, Bromelia antiacantha e espigada, quando as flores são
sésseis, ou seja, em pedúnculo, por exemplo, Tillandsia aeranthos.
A inflorescência composta subdivide-se em racemo paniculado quando traz
flores pedunculadas, por exemplo, Bromelia antiacantha e espiga paniculada, quando
há flores sésseis, por exemplo, Aechmea distichantha (REITZ, 1983).
Com poucas exceções, a espiga da inflorescência surge do
centro da roseta e, após a floração, quando a roseta fecha,
cessa o crescimento. Assim, novas plantas passam a ser produzidas, a partir de
botões dormentes nas axilas das folhas. Outra característica é que
as folhas de todas as espécies apresentam pequenas películas (escamas)
em forma de escudo, que possibilitam a absorção de nutrientes e
da umidade do ar, auxiliando a planta a sobreviver à seca
ou ao calor excessivo.
As flores são hermafroditas e trímeras (JOLY, 1998). Segundo Reitz
(1983), as menores são as de Tillandsia aeris-incola com 6mm de comprimento,
e as maiores as da Billbergia alfonsi-joannis, com 120mm, contadas entre as maiores
flores das bromeliáceas brasileiras. De acordo com Rizzini & Mors
(1995), as flores coloridas via de regra sustentam-se em brácteas, igualmente
coloridas; sendo muito comum haver flores azuis e brácteas vermelhas.
Conforme Reitz (1983), o cálice compõe-se de três sépalas
que formam um tubo ao redor das pétalas. São muitas vezes assimétricos.
A forma pode ser ovóide, ovóide-aguda, navicular, obtusa, mucronada,
ou ainda de ápice inciso. Uns são livres até a base, outros
parcialmente soldados. Na corola, as pétalas são sempre dextrorsas;
zigomorfas. Podem ser livres até a base, parcialmente concrescidas entre
si e até unidas aos filamentos formando o tubo petáleo-estamíneo.
O androceu compõe-se de seis estames dispostos em duas séries,
menores ou maiores que a corola. Os filamentos podem ser filiformes ou mais grossos
embaixo, ou em cima. As anteras são presas no dorso, quase pela metade
do mesmo. Possuem dois lóculos e quatro sacos polínicos que se
abrem para dentro por uma fenda longitudinal. Em geral retas, arqueiam a extremidade
superior para fora. A base em geral é incisa. Às vezes são
lanceoladas, lineares ou um pouco sagitadas. A forma do grão de pólen,
geralmente, é elipsóide, mas também pode possuir forma esférica.
No gineceu o ovário é formado por três carpelos mais ou menos
concrescidos em suas margens e trilocular, com placentas de ângulo central.
Pode ser súpero, semissúpero ou ínfero. Na subfamília
Bromelioideae, que apresenta ovário ínfero, aparece acima do ovário
um tubo cilíndrico, afundado ou em forma de jarro chamado tubo epígino,
que serve para a recepção do néctar. Os ovários são
anátropos. Acham-se fixados ao longo da linha do ângulo interno
dos lóculos, às vezes da base até o terço superior,
na metade, no terço superior ou só no ápice. A quantidade
de óvulos varia muito, em geral são numerosos. São providos
de dois tegumentos muitas vezes de igual comprimento. O estilete pode ser grande
ou pequeno e, por vezes, tão diminuto, quase invisível. O estigma é trifurcado.
Segundo Rizzini & Mors (1995), as bromeliáceas fornecem bagas comestíveis
e fortemente ácidas. De acordo com Joly (1998), fornece às vezes,
fruto sincarpo, como no abacaxi (ananás), ou capsular. A baga maior é de
Bromelia antiacantha, de cor amarelo-alaranjado (REITZ, 1983). A maioria das
espécies ornamentais gera frutos secos (RIZZINI & MORS,
1995).
As bromeliáceas são propagadas por meio de bulbos de reprodução
ou a partir de sementes. A maneira mais fácil de multiplicação é através
de bulbos. Estes bulbos são produzidos pelas próprias plantas,
em geral após o período de floração e, em rigor,
basta destacá-los da planta mãe e plantá-los em separado.
Este é, inclusive, o único método de propagação
recomendado para bromeliáceas híbridas ou de formas particulares,
como as que têm folhas variegadas.
Na maioria das bromeliáceas, a espiga de floração emerge
do centro do tubo ou roseta, que compõe a planta e, tendo florido uma
vez, esta roseta não voltará a florescer mais. Em compensação,
a planta começará a desenvolver brotos, a partir de uma ou várias
axilas das folhas inferiores. Algumas espécies produzem seus bulbos perto
das axilas, enquanto outras possuem um longo caule de aspecto semelhante à madeira,
conhecido por estolho, que sustenta a nova roseta na ponta. Seja qual for o caso,
quando o bulbo alcançar cerca de um terço do tamanho de sua roseta-mãe,
poderá ser destacado de maneira bastante fácil com uma pressão
lateral do polegar. Deve então ser plantado num vaso pequeno, contendo
uma mistura de volumes iguais de areia grossa e musgo. No mais, é só regar
e cultivar nas condições normais adequadas para a espécie
em questão. As regas devem ser feitas com intervalos e apenas quando a
mistura de solo estiver seca. Por isso, o ideal é que se tenha cuidado,
sobretudo, em não permitir que entre água no centro da nova roseta
antes dela se encontrar enraizada. É que se isso ocorrer, a roseta poderá se
tornar “cega” e não crescerá. Em todo o caso, mesmo
um bulbo cego com o tempo produzirá seu pequeno bulbo de reprodução,
que se transformará, mais tarde, numa nova planta, ainda que
o processo demande bem mais tempo.
Os bulbos também podem ser enraizados enquanto ainda estiverem ligados à planta-mãe.
Para tanto, o seguinte deve ser feito: quando o bulbo tiver atingido cerca de
um quarto do tamanho da planta-mãe, o estolho tem de ser coberto com uma
mistura de areia e musgo seco por um período de cerca de um mês.
Nessas condições, as raízes se desenvolvem muito rápido
a partir do fundo do bulbo, que poderá então ser destacado e plantado,
já com raízes, em um vaso à parte.
Uma bromeliácea produz de um a três bulbos e, mesmo após
eles terem sido removidos, a planta-mãe deve ainda ser preservada. Suas
folhas tenderão a ficar bastante danificadas, mas podem ser aparadas de
modo que a planta ocupe um mínimo de espaço. Esta planta velha
durará algo em torno de três a quatro anos, sendo que, durante todo
esse tempo, produzirá novos bulbos a cada ano.
A Vriesea splendens, no entanto, e uma ou duas espécies com parentesco
próximo apresentam um comportamento diferente. Após a floração,
formam apenas um bulbo de reprodução, a partir de um broto perto
do centro da antiga roseta, o qual é difícil de remover e enraizar
em separado. Ao crescer, as folhas velhas morrem rápido, e o novo broto é deixado
sobre a planta velha, para que cresça e floresça. Por esta razão,
tais plantas são muito cultivadas por sementes.
As espécies do gênero Cryptanthus e híbridos produzem seus
bulbos de reprodução de modo liberal a partir das axilas das folhas,
em alguns casos sem que a planta-mãe tenha florido. Os pequenos bulbos
são destacados com facilidade, acabam quase caindo por conta própria,
e, se colocados em vasos com a mistura de areia e musgo seco, crescerão
e até mesmo produzirão bulbos, sem que tenham desenvolvido raízes.
O gênero Tillandsia, xerófita de folhas prateadas também
pode ser multiplicada por bulbos de reprodução, mas não
de modo tão simples como a maioria das outras bromeliáceas. Após
a floração, produz bulbos nas axilas das folhas, em geral bem perto
da base e, portanto, mais difíceis de destacar da planta-mãe. Assim,
o melhor é deixar o bulbo crescer até a metade do tamanho de uma
planta adulta. As folhas inferiores da planta antiga podem então ser retiradas
e o novo bulbo se mostrará por inteiro.
As sementes possuem endosperma abundante, comosa ou não (JOLY, 1998).
O tegumento externo envolve a semente como uma capa. Na maturação,
porém, as células desta camada externa separam-se da interna em
longas estrias e ficam ligadas a esta apenas pela base, formando uma proteção
de pêlos aéreos. Estes pêlos são articulados, compostos
de células alongadas que parcialmente se tocam ou se intercomunicam por
meio de extremidade em forma de garfo, contribuindo para a abertura da cápsula.
A extremidade livre é recurvada em forma de gancho. A segunda parte do
tegumento externo que se comunica com a primeira na base, também é pilosa.
Os pêlos envolvem a semente com sua extremidade livre e estreita. As sementes
também se caracterizam pelo albúmen farinoso típico. O embrião
acha-se localizado na parte inferior fixado ao albúmen, com cotilédone
num sulco ou numa fissura do mesmo (REITZ, 1983).
As sementes das bromeliáceas são de três tipos. Os gêneros
Aechmea, Billbergia e outros relacionados formam pequenas bagas, após
as flores terem sido fertilizadas, que ficam cheias de uma geléia pegajosa
que envolve as sementes. Esta geléia deve ser retirada das sementes antes
que sejam secas e semeadas, de preferência, lavando-as com uma solução
de fungicida para evitar qualquer crescimento de fungos. Outras bromélias,
como a Pitcairnia e as terrestres Puya e Dyckia, produzem cápsulas contendo
sementes secas e soltas, que podem ser retiradas com facilidade. Por fim, as
bromélias epífitas, como a Tillandsia, vriesea e Gusmania, possuem
sementes secas com pára-quedas sedosos, semelhantes às sementes
do dente-de-leão, que são dispersas pelo vento.
Segundo Silva (1999), florescem somente uma vez durante seu tempo
de vida. Após
a floração a planta geralmente desenvolve uma brotação
lateral que substituirá a planta que irá morrer. As bromélias
atingem a maturidade e florescem em diferentes idades, de meses a dezenas de
anos, dependendo da espécie e condições ambientais, respeitando
sempre uma determinada época do ano (SILVA, 1999).
Muitas vezes uma planta não floresce devido à falta de luminosidade
ou outro fator ambiental, como, por exemplo, a temperatura. Por outro lado uma
brusca mudança do ambiente pode provocar a floração numa
planta adulta. A planta sente-se ameaçada e o instinto de preservação
da espécie desencadeia a floração com o fim de gerar sementes
e brotos laterais, e tudo isso para assegurar a sua preservação
(SILVA, 1999). A luz é um dos fatores mais importantes na sobrevivência
das bromeliáceas. Segundo Silva (1999), a maioria das bromeliáceas
aprecia muita claridade em luz difusa. Em geral, plantas com folhas rígidas,
estreitas e espinhentas, tal como folhas de cor cinza-esverdeada, cinza, avermelhada
ou prateada gostam de maior luminosidade durante maior período de tempo,
alguns até mesmo sol pleno. Plantas de folhas macias, de cor verde ou
verde-escuro, apreciam lugar com menor intensidade de luz, mas nunca um local
escuro (SILVA, 1999). Assim, as xerófitas e apreciadoras de luz, como
a Tillandsia e a Dyckia, e mesmo as de folhas rígidas, Aechmea e Billbergia,
são encontradas em posições mais altas, onde a luminosidade é sempre
mais intensa. Seguindo-se em ordem decrescente de intensidade de
luz, podem ser dispostas as Neoregelia, Pitcairnia e Gusmania de
folhas
macias, Nidularium
e
Cryptanthus.
Todas as bromeliáceas podem crescer à sombra ou à meia-sombra,
mas as espécies de folhas rígidas apresentam melhores formatos
e cores, quando recebem uma quantidade de luz maior. Em contrapartida, a maioria
das Vriesea e Gusmania, de folhas coloridas, tende a esmaecer e perder sua aparência
exótica, se submetidas ao excesso de luz. Com sintomas de pouca luminosidade
as plantas apresentam folhas escuras ou pobres em cor, freqüentemente macias,
caídas e bem mais longas que o normal (estioladas). Como sintomas de excesso
de luz, tem-se folhas amareladas, com manchas esbranquiçadas, ressecadas
e até com verdadeiras queimaduras (SILVA, 1999).
Segundo Silva (1999), as bromeliáceas são plantas tipicamente tropicais,
portanto, a maioria aprecia temperaturas elevadas e bons índices de umidade
associados a um local muito ventilado. As Guzmanias são as que menos apreciam
temperaturas altas, e as Tillandsias as mais exigentes em arejamento, enquanto
Vriesea e Nidularium preferem locais com bastante umidade. No Brasil, dificilmente
terá esse tipo de problema; em todo caso, considera-se que, as bromélias
podem ser divididas em dois grupos, onde as de folhas macias requerem temperaturas
mais altas, enquanto as outras são mais resistentes ao frio. De qualquer
forma, temperaturas no inverno por volta de 15°C não costumam prejudicar
qualquer espécie de bromeliáceas.
Dependendo da espécie, algumas apresentam inflorescência extremamente
exuberante, podendo ser de longa duração. Algumas duram meses como
a Aechmea fasciata e a Gusmania Denise, outras são breves
e duram poucos dias como muitas das Billbergias (SILVA, 1999).
As bromeliáceas não são parasitas. Podem ser encontradas
de forma epífita como a Vriesia, simplesmente apoiando-se em outro vegetal
para obter mais luz e mais aeração sem, contudo, retirar nada de
sua hospedeira; encontradas muitas vezes no topo de árvores ou sobre arbustos,
e geralmente possuem folhas com margens lisas. Neste caso, as raízes são
meros meios de sustentação da planta com pouca função
nutricional. Também podem ser terrestres como Encholirium e Dyckia, na
maioria possuindo folhas armadas de espinhos afiados e margens serreadas, com
raízes bem desenvolvidas e com importante função, fixando-as
no solo e dele extraindo água e sais minerais. Segundo Silva (1999), ainda
podem ser rupículas, mais precisamente saxícolas que são
aquelas cujas raízes se prendem nas rochas e tendo também função
de absorver água e sais minerais dos sedimentos que se acumulam entre
as raízes, nas fendas e reentrâncias das pedras. Nos três
tipos, sempre em maior ou menor escala há a absorção de
nutrientes pelos tricomas foliares. A alimentação dessas plantas é complementada
pela solução dos detritos orgânicos que caem no “copo”,
como insetos que se afogam na água, poeira, folhas, frutos, sementes,
penas e excremento de pássaros (SILVA, 1999).
De acordo com Schimper (1888) apud Pita & Menezes (2002), as epífitas
evoluíram de espécies terrestres para as matas úmidas, e
destas para o dossel, cuja atmosfera, servindo como fonte de água e nutrientes,
permitiu que essas plantas se desligassem do solo. As adaptações
que caracterizam tal evolução consistem na redução
estrutural e funcional das raízes e na especialização dos
tricomas foliares, as escamas, que podem suprir parcial ou totalmente a função
de absorção das raízes (Gilmartim, 1972; Benzing, 1973;
Benzing et al., 1978 apud PITA & MENEZES, 2002).
A família Bromeliaceae de acordo com Silva (1999), com base em suas características
florais e na morfologia dos frutos e sementes, foi dividida em três subfamílias,
distintas, que então agrupam os gêneros que por sua vez contêm
as espécies. Segundo Tardivo & Cervi (1997), as três subfamílias
são Pitcairnioideae (Meisner) Harms, Tillandsioideae (Dumortier) Harms
e Bromelioideae, onde cada uma agrupa gêneros com características
de hábito e forma distintos. No entanto, Leme & Marigo (1993), em
estudos ainda não concluídos, sugerem a criação de
duas novas subfamílias: Cryptanthioideae e Navioideae. Segundo Pittendrigh
(1948) apud Pita & Menezes (2002), as espécies da subfamília
Pitcairnioideae, são terrestres, de natureza xerofítica, com sistema
radicular bastante desenvolvido, que desempenha as funções de absorção
de água e sais minerais e de fixação da planta no substrato.
Apresenta ovário em geral súpero; frutos usualmente secos, encerrados
em cápsulas deiscentes (abrem-se expontaneamente); sementes nuas ou com
apêndices, mas nunca plumosas e as margens das folhas geralmente com a
presença de espinhos. A subfamília Tillandsioideae possui na grande
maioria plantas epífitas; o gênero Alcantarea é saxícola
ou terrestre; sistema radicular menos desenvolvido (Pittendrigh, 1948 apud PITA & MENEZES,
2002), e que diminui, progressivamente, a função de absorção,
concomitante com a evolução das escamas foliares como parte central
na absorção de água e nutrientes; o ovário geralmente é súpero;
os frutos são secos; as sementes plumosas em cápsula deiscente
e as margens das folhas com ausência de espinhos. E nas Bromelioideae,
muitas plantas são epífitas; o ovário é ínfero;
os frutos são em forma de baga e as sementes não têm apêndices
e as margens das folhas em quase todas as espécies têm espinhos;
também apresenta sistema radicular menos desenvolvido (Pittendrigh, 1948
apud PITA & MENEZES, 2002), diminuindo a função de absorção
de água e nutrientes. Segundo Leme & Marigo (1993), o leste brasileiro
abriga a maior parte dos representantes da subfamília Bromelioideae, com
28 gêneros, destes, 11 são endêmicos, como o gênero
Canistrum.
Segundo Silva (1999), as bromeliáceas florescem na primavera e no verão,
com exceção do gênero Quesnelia, encontrada no litoral brasileiro,
que floresce no inverno. Quase todas as espécies morrem depois da maturação
das sementes, mas, antes disso, formam “filhotes”, ou brotos, na
base, ideais para formação de novas mudas, que podem ser separados
da mãe com uma faca afiada. Elas também se propagam por sementes,
mas esse é um processo mais complicado e demorado.
Segundo Cogliatti & Rocha (2001), em populações de broméliáceas,
a quantidade de luz e os tipos de substratos disponíveis afetam a organização
espacial dos indivíduos. Na Floresta Atlântica da Ilha Grande, Neoregelia
johannis é uma espécie heliófila abundante e de grande porte.
Nesta floresta, seria de se esperar que esta espécie ocupasse substratos
estáveis, como troncos e galhos de grande porte, blocos de rocha ou o
solo, com alta luminosidade solar, suficiente para a sobrevivência de bromeliáceas.
Neste trabalho realizado por Cogliatti & Rocha (2001), foram analisados a
distribuição espacial e os substratos utilizados pela bromélia
na floresta secundária. O substrato preferencial foi bloco de pedra (91%),
enquanto tronco (6%) e solo (3%) foram raramente utilizados. Substratos de pequeno
porte e frágeis são instáveis para suportar adultos desta
espécie, o que justifica o estabelecimento predominante de bromeliácea
sobre os blocos de pedra na floresta secundária, já que a presença
dos blocos também resulta em aberturas na cobertura vegetal. O hábito
preferencial e a distribuição agregada de N. johannis devem-se à conjunção
substrato preferencial com maior aporte de luz resultante da abertura da cobertura
vegetal na área dos blocos de rocha (COGLIATTI & ROCHA,
2001).
As bromeliáceas, praticamente, são isentas de doenças. No
entanto, ainda na forma de brotos muito jovens, podem ser atacadas por fungos,
embora a utilização de um fungicida adequado no estágio
inicial, costuma resolver o problema. Porém, segundo Silva (1999), são
muito sensíveis a fungicidas e inseticidas, pois absorvem esses produtos
facilmente em seu metabolismo. Com relação às pragas, as
cochonilhas podem atacar as bromélias, apresentando-se como pequenos objetos
redondos ou ovais sobre as folhas. Os insetos jovens possuem a capacidade de
se espalhar pelas folhas e por outras plantas antes de se estabelecer para produzir
uma ninhada. Multiplicam-se muito rápido e não tornam apenas a
planta feia, produzindo manchas amarelas nas folhas onde sugaram a seiva, mas
também enfraquecem de maneira significativa, se for permitida sua proliferação.
Moluscos e lagartas também podem comer os brotos jovens se tiverem chance.
Elas se alojam em geral nas bases entrelaçadas e úmidas das folhas
em rosetas das plantas adultas, saindo à noite para se alimentar das espigas
de floração (e não geralmente das folhas, que parecem ser
duras demais para o gosto deles). De acordo com Silva (1999), convém ressaltar
que as bromeliáceas são plantas extremamente sensíveis ao
ar enfumaçado ou poluído, porque absorvem elementos nocivos, depositados
na água do cálice.
As plantas da família Bromeliaceae são epidemiologicamente consideradas
recipientes naturais ou artificiais para o desenvolvimento das formas imaturas
de alguns culicídeos. As bromeliáceas são estruturas biológicas
complexas, as quais representam verdadeiros microcosmos capazes de propiciar
a inclusão de comunidades animais. Assim, não podem ser consideradas
como simples fitotelmatas, mas como ilhas biológicas, nas quais a riqueza
faunística se correlaciona com o tamanho da planta (MARQUES et al., 2001).
No ambiente natural, as bromeliáceas representam um importante elemento
de manutenção da biodiversidade, pois ocupam terrenos estéreis
que outras plantas rejeitam e contribuem com biomassa, enquanto sua arquitetura
foliar serve como elemento de sustentação da vida. Por outro lado,
quando é trazida para o meio urbano, vem com todo seu potencial de sustentar
a vida, sem que esta acompanhe a bromélia, o que gera desequilíbrio
ecológico.
As bromeliáceas comparando ao restante dos criadouros artificiais em área
urbana, podem ser consideradas secundárias, mas merecem atenção
face à crescente comercialização para fins ornamentais,
inclusive com produção em escala industrial. Isso poderia significar
incremento de criadouros viáveis para os mosquitos (CUNHA et al., 2001).
Dada a beleza natural e a ampla utilização em paisagismo, essas
plantas têm sido também produzidas por meio de técnicas convencionais
na disponibilização de plantas para o mercado decorativo, principalmente
em ambiente urbano (FORATTINI et al., 1998). De acordo com Cunha et al. (2002),
as bromeliáceas só são consideradas criadouro natural quando
não há ação antrópica sobre ela e a destaca
como depósito isolado, almejando a verificação da real importância
dessa planta no desenvolvimento de culicídeos. Por conta disso, no passado,
florestas inteiras, em volta de cidades e vilarejos, foram derrubadas. Ao que
se sabe, três mil hectares de “matas urbanas” foram postas
abaixo no Brasil, para acabar com as bromeliáceas, que davam abrigo aos
insetos transmissores de doenças. As endemias foram efetivamente controladas,
mas a conta foi paga depois, sob a forma de um grave desequilíbrio ecológico.
Desequilíbrio que provocou, e ainda provoca, entre outras coisas, a erosão
das encostas, com o conseqüente desmoronamento de barrancos, que levam de
roldão estradas, ruas, viadutos e até casas. Concluiu-se que a
diferença entre o remédio que cura e o veneno que mata está quase
sempre na dose. Assim, saber neutralizar o lado negativo das coisas é a
maneira mais sábia de tirar proveito das maravilhas da natureza.
De acordo com Paho (1995) apud Marques et al. (2001), o culicídeo Aedes
albopictus parece apresentar ampla valência ecológica, evidenciada
pela capacidade de colonizar os mais variados tipos de recipientes, naturais
e artificiais. Segundo Forattini et al. (1998), o culicídeo Aedes albopictus
tem sido encontrado em ampla variedade de criadouros naturais, dentre eles os
vegetais da família Bromeliaceae. A utilização de bromeliáceas
como criadouros por esse mosquito poderá representar mais uma questão
de ordem epidemiológica relativa à infestação do
País (NATAL et al. 1997). Trata-se de família quase que exclusivamente
americana, com gêneros e espécies, distribuídos ao longo
das regiões tropicais do Continente. São vegetais cujas raízes
têm somente função fixadora (FORATTINI et al., 1998). A planta
retira os nutrientes de que necessita, a partir de detritos vegetais e da água
que se acumula no tanque. Desenvolvem-se aí macro e micro floras e faunas,
formando biocenose da qual podem participar formas imaturas de Culicidae (FORATTINI
et al., 1998). De início e do ponto de vista antrópico há de
se classificar as bromeliáceas como representando recipientes naturais
ou artificiais, dependendo das circunstâncias (MARQUES et al., 2001). Obviamente,
as plantas que se incluem na primeira dessas duas categorias seriam encontradas
no ecossistema primitivo ou modificado pela ação humana. Neste último
caso, são apenas remanescentes e, portanto, localizadas, junto ou dentro
de manchas residuais da floresta primária. Quanto à segunda categoria,
a ela pertenceriam os vegetais que foram cultivados, mantidos ou simplesmente
dispostos para fins decorativos ou mesmo para coleções de bromeliófilos
(FORATTINI et al., 1998). De acordo com O’ Meara e col. (1993) apud Forattini
et al. (1998), os encontros registrados na América do Norte parecem ser
devido à segunda das circunstâncias supramencionadas, ou seja, a
processo que se poderia considerar como de domesticação de bromeliáceas.
Com efeito, atribui-se o uso desses vegetais para fins decorativos, um dos fatores
de favorecimento da difusão de Aedes albopictus na Flórida. No
Jardim Botânico de Missouri instalou-se grande estufa, ali denominada de “Climatron”,
com o objetivo de imitar clima tropical. Nesse ambiente artificial foram colocadas
bromeliáceas nas quais verificou-se a instalação desse mosquito
(Kottkamp, 1994 apud FORATTINI et al., 1998). Em se tratando de plantas encontradas
no ecossistema primitivo florestal, pode-se considerar como domiciliadas as remanescentes
e que permanecem no ambiente antrópico, junto às habitações.
Nessa categoria pode ser incluído o achado inicial na cidade de São
Paulo, em parque que poderia representar parte residual da vegetação
primitiva que ali existia (NATAL et al., 1997). A interpretação
desses encontros poderá ensejar a realização de estudos
mais aprofundados e que permitam aplicação epidemiológica.
De acordo com Marques et al. (2001), pelo fato do Aedes albopictus ser uma espécie
generalista que tem demonstrado poder se estabelecer em diversos tipos de criadouros,
ao encontrar condições favoráveis, tem-se a importância
de investigar o potencial desse recurso paisagístico em hospedar as formas
imaturas desse mosquito e de conhecer sua possível contribuição
para manter essa espécie. Deveria-se visar ao aparente poder de difusão
que vem sendo revelado pela população desse vetor potencial, em
nosso meio. Para tanto, seria de todo recomendável a elaboração
de modelo teórico que se baseasse em maior número de observações
(FORATTINI et al., 1998).
O significado epidemiológico das bromeliáceas como criadouros potenciais
de Aedes albopictus foi o objetivo da avaliação realizada por Marques
et al. (2001), em áreas urbana e periurbana de Ilhabela e Ilha Comprida,
no Estado de São Paulo. Nas presentes observações, a fauna
culicidiana encontrada foi semelhante em ambas localidades estudadas. A quantidade
de larvas obtidas, todavia, mostrou-se muito diferente, sendo muito maior em
Ilhabela do que em Ilha Comprida. Em Ilhabela, após a retirada das larvas,
o conteúdo aquático era devolvido para a bromélia, o que
não ocorria em Ilha Comprida. Também havia o fato da não-repetição
de espécime vegetal a cada coleta no município de Ilhabela. Nas
bromeliáceas domesticadas, o encontro de Aedes albopictus foi mais freqüente.
A espécie apareceu como a sétima mais importante em ambiente urbano,
no município de Ilhabela, contribuindo com 7% do total dos mosquitos ali
presentes e deixando, assim, de comparecer em apenas um dos 17 meses de captura.
Nas bromeliáceas domiciliadas, a presença também foi marcante,
embora com números inferiores aos registrados em ambiente urbano. Foi
a décima segunda espécie em importância e representou 1,3%
do total coletado, comparecendo em 13 dos 17 meses. O menor volume de água
nas bromeliáceas domiciliadas não foi motivo para que a quantidade
total de mosquitos fosse inferior às domesticadas, mas pode não
interferir na ocorrência das espécies já adaptadas a esse
tipo de criadouro, porém pode representar impedimento àquelas que
utilizam esse recipiente oportunisticamente. Assim, a manutenção
de água nas plantas, providenciada na maior parte das vezes pelos proprietários,
estaria favorecendo a permanência e a dispersão de Aedes
albopictus.
De acordo com Forattini & Marques (2000), as atividades de vigilância
destinadas a detectar a presença de Aedes aegypti em recipientes nos quais
possam desenvolver as formas imaturas têm objetivado a inspeção
de vários tipos, transitórios e permanentes. O habitat desse mosquito
parece ter certa preferência por ambientes com maior riqueza de microorganismos
e de matéria orgânica (Barrera, 1996 apud FORATTINI & MARQUES,
2000). Nesse particular, as bromeliáceas reúnem tais requisitos;
tratando-se, pois de microcosmos com gradiente ecológico para tais comunidades
e, portanto, não simples fitotelmatas como freqüentemente têm
sido consideradas (Richardson, 1999 apud FORATTINI & MARQUES, 2000). Em janeiro
de 2000, durante inspeção que resultou na visita a 520 prédios
situados no município de Potim, situado à cerca de 150 Km da cidade
de São Paulo, SP, pôde-se detectar a presença de larvas de
Aedes aegypti em 117 edificações. Dentre os habitats figurou o
encontro de três larvas em bromélia domesticada (FORATTINI et al.,
1998), da espécie Aechmea fasciata. Na domesticação de bromélias
desenvolveu-se o traço cultural tornando difícil o controle, uma
vez que esses vegetais ornamentais não seriam descartáveis. Ainda
mais, trata-se de recipientes dificilmente esgotáveis no sentido de esvaziá-los
de seu conteúdo líquido, à semelhança do que se preconiza
realizar com outros (Chan et al., 1998 apud FORATTINI & MARQUES, 2000). De
acordo com MARQUES et al. (2001), o conhecimento da ocupação de
bromeliáceas por Aedes albopictus pode revelar a possibilidade dessa espécie
permanecer em ambientes onde eventualmente poderia haver pressão seletiva. Essa pressão está direcionada para reduzir criadouros artificiais,
uma vez que esse tipo de atividade é uma das prioridades dos programas
de controle e erradicação de Aedes aegypti. Há muitos fatores,
não apenas por parte da população-objeto, mas também
derivados de hábitos da sociedade humana (FORATTINI & MARQUES,
2000).
No Rio de Janeiro, o Programa Diretor de Erradicação do Aedes aegypti,
desenvolvido pela Secretaria Municipal de Saúde, face ao aumento significativo
do uso de bromélias para fins decorativos, vem lhes imputando certa importância
como criadouros dessa espécie de mosquito (CUNHA et al., 2002). Em domicílios
humanos, é bastante comum o encontro de bromélias em varandas,
bem como em quintais (peridomicílio), muitas vezes fixadas em árvores
(epífitas), apresentando-se, assim, como oferta para o desenvolvimento
de formas imaturas do Aedes aegypti. De acordo com Cunha et al. (2002), em relação
ao total de depósitos com essa espécie no Rio de Janeiro, no período
de 12 de novembro de 2000 a 9 de março de 2001, correspondendo ao quarto
ciclo operacional, as bromeliáceas aparecem com 0,51% na área urbana
e com 0,02% nas favelas, e no período de 12 de março de 2001 a
15 de junho do mesmo ano, correspondendo ao primeiro ciclo operacional, com 2,03%
(urbana) e 0,07% (favelas). A diferença entre a positividade de bromeliáceas
em área urbana e favelas foi altamente significante, pois nas favelas
essas plantas são bem menos comuns do que na área urbana.
O Sistema de Informações de Febre amarela e Dengue (FAD), programa
de computador utilizado pela Fundação Nacional de Saúde
em nível nacional para processar dados obtidos nas atividades de campo
desenvolvidas pelos agentes de saúde (Ministério da saúde,
1998 apud CUNHA et al., 2002), exclui, no município do Rio de Janeiro,
a bromélia do conjunto de depósitos naturais. A bromeliácea é considerada
criadouro natural quando não há ação antrópica
sobre ela (FORATTINI et al.,1998). De acordo com Cunha et al. (2002) em relação
ao total de depósitos com Aedes aegypti, as bromeliáceas aparecem
com um aumento significativo na área urbana em relação às
comunidades (favelas).
O sucesso na ocupação das bromeliáceas pelos culicídeos
(Miller & Ballinger, 1988 apud MARQUES et al., 2001), e a facilidade com
que esses criadouros são encontrados nas localidades urbanas, aliados à competência
vetorial para vários tipos de arbovírus, indicam maiores possibilidades
de contato entre a população humana e os agentes nocivos que se
encontram no ecossistema natural (MARQUES et al., 2001). De acordo com Cunha
et al. (2002), cada vez mais, as bromeliáceas são utilizadas de
forma doméstica, sem, contudo, ser dada a devida importância ao
acúmulo natural de água em seu tanque, fato que conduz a Secretaria
de Saúde dos Estados a se voltar para o problema.
Segundo Reitz (1983), o princípio de que deve existir uma estreita e íntima
relação entre a fauna e a flora de cada região, a fim de
manter o equilíbrio biológico, foi o que efetuou um dos maiores
levantamentos fitossociológicos na América do Sul, por meio de
quadrados de prospecção e de inventário na Mata Pluvial
da encosta atlântica do sul do Brasil, ao mesmo tempo, que se realizava
uma intensa pesquisa sobre o “habitat” preferencial das bromeliáceas,
criadouros das larvas e pupas dos Anofelinos, transmissores da malária
nesta região. Os mosquitos Anopheles (Kerteszia) cruzii e Anopheles (Kerteszia)
bellator importantes transmissores da malária nos estados de São
Paulo e no Sul do país, tanto no planalto como nas planícies (NEVES,
1995), tem como criadouros águas coletadas no embricamento de folhas de
Bromeliaceae (MARCONDES, 2001). As águas das chuvas permanecem nas axilas
das folhas e, como a evaporação é pequena, os insetos se
criam facilmente. Preferem as bromeliáceas protegidas da luz solar (FORATTINI
et al., 2000). Segundo Reitz (1983) não existem propriamente hospedeiros
preferenciais para a afixação das bromeliáceas, nem espécies
preferenciais de bromeliáceas para a ovoposição dos alados
de anofelinos, mas ficou esclarecido, de que existem condições
ecológicas necessárias, para o desenvolvimento completo dos mosquitos,
desde o estado larval até o alado e conseqüentemente, para a sobrevivência
das formas aquáticas dos anofelinos. Os levantamentos fitossociológicos
demonstraram, portanto, que não existem espécies arbóreas,
onde se costumam afixar determinadas espécies de bromeliáceas,
como era de se esperar, mas que o fator luz, é o responsável pela
distribuição vertical das espécies das mesmas. Ficou esclarecido
ainda, que as árvores mais desenvolvidas, eram sem dúvida, as mais
importantes portadoras das bromeliáceas, em virtude não das propriedades
específicas da árvore, mas antes pelo espaço mais apropriado,
oferecido à afixação em virtude de seu porte mais agigantado.
Igualmente ficou evidenciado que as bromeliáceas de grande porte e, portanto,
com boa capacidade de retenção das águas pluviais durante
todo o ano, eram os melhores criadouros, ao passo que as espécies menores,
só se prestam como bons criadouros, quando estão situados a pequena
altura, onde pode-se manter um volume de água médio anual bastante
regular, tolerantes à sombra e muito exigentes, quanto à umidade
relativa do ar circundante, que possa impedir consideravelmente uma evaporação
mais rápida. Com base nas pesquisas efetuadas até o momento, podem
ser apontados como biótopos e criadouros permanentes dos anofelinos, um
pequeno grupo de bromeliáceas, que em geral são menos abundantes
do que as demais. Este fato poderia simplificar extraordinariamente a solução
do problema no combate aos transmissores da malária, na encosta atlântica
do sul do Brasil. As espécies de bromeliáceas determinadas preferenciais
como criadouros dos anofelinos são: Canistrum Lindeni, Vriesea
gigantea, Vriesea Philippocoburgii, Nidularium Innocentii, Hohenbergia
augusta, Vriesea
Jonghii.
São economicamente importantes pelos frutos que produzem, e pela obtenção
de fibras. Mas, aparentemente, as bromeliáceas acabaram conquistando o
homem pelo estômago. Isso porque, a primeira bromeliácea a ser introduzida
na Europa, há mais de 300 anos (1493), foi o Ananas comosus, o nosso conhecido
abacaxi, que segundo Silva (1999), é originário do Nordeste brasileiro.
Segundo Rizzini & Mors (1995), é industrializado em amplas proporções
em diversas regiões tropicais. Apresenta infrutescências carnosas
(JOLY, 1998). Sendo muito apreciadas tanto ao natural quanto em compota (RIZZINI & MORS,
1995). Suas folhas possuem fibras de excelente qualidade sendo usadas para a
confecção de tecidos, alta qualidade de sua celulose utilizada
na fabricação de papelão ondulado leve, chá da flor
restabelecendo a pigmentação natural da pele e o equilíbrio
térmico, além de ser uma ótima fonte de cálcio e
vitamina A, B e C. Possui uma substância de grande valor medicinal, a enzima
bromelina, que atua como substituta do suco gástrico, acelerando a passagem
dos alimentos pelo estômago, melhorando a digestão. Além
das propriedades econômicas, apresentam propriedades medicinais agindo
como fitoterápico na desobstrução do fígado, no combate às
aftas e todas as afecções da mucosa, calmante da tosse, expectorante,
diurético suave, vermífugo, digestivo, utilizado em dietas de emagrecimento,
reduzindo o apetite e também utilizado no tratamento da acne e como ingrediente
de máscaras contra pele oleosa e prevenção do
envelhecimento.
Segundo Joly (1998), o gênero Neoglaziovia, conhecido como caroá do
Nordeste brasileiro, fornece fibra para tecelagem. Outros são usados como
plantas ornamentais, tais como várias espécies de Dyckia, Tillandsia,
Vriesea, Aechmea, Nidularium, Billbergia, etc. São de um modo geral conhecidas
no Brasil pelo nome indígena de caraguatá ou também pelas
corruptelas craguatá ou gravatá. No Nordeste são conhecidas
como macambira, florescendo na primavera e no verão. O gênero
Quesnelia do litoral, floresce no inverno.
Algumas bromeliáceas têm se mostrado importantes plantas bioindicadoras,
na avaliação da qualidade do ar. Segundo Moura & Alves (2003),
que realizaram um estudo com o objetivo de verificar se espécimes de Tillandsia
usneoides expostos na cidade de São Paulo sofrem alterações
estruturais quando comparados com indivíduos-controle expostos em área
isenta de poluição aérea, estabelecendo parâmetros
anatômicos potencialmente bioindicadores da poluição. Parâmetros
como, altura das células epidérmicas, densidade estomática,
densidade das escamas e área do feixe fibro-vascular. Como resultado da
avaliação qualitativa das escamas revelou-se a existência
de anomalias na distribuição de suas células. A análise
quantitativa das folhas revelou que o número de escamas sofreu redução,
e aumento na altura das células epidérmicas, e nos locais onde
a concentração de ozônio é elevada, houve um aumento
na freqüência das escamas, onde resultados mais significativos referiram-se às
anomalias na distribuição das células das escamas, redução
ou aumento do número de escamas.
A família Bromeliaceae é muito representada em restingas (SILVA & SOMNER,
1984), sendo importante para a comunidade como um todo, principalmente pela capacidade
de armazenar água em seu vaso, o que a torna um elemento importante para
a manutenção da diversidade deste habitat (ROCHA et al., 1997).
Diversas espécies animais utilizam as bromeliáceas para forrageamento,
reprodução e refúgio contra predadores (OLIVEIRA & ROCHA,
1997). A germinação e o desenvolvimento de algumas espécies
de plantas podem, também, ocorrer nas bromeliáceas (Fialho, 1990;
Fialho & Furtado, 1993 apud CARVALHO et al., 2001).
De acordo com Carvalho et al. (2001), que analisou a variação na
estrutura e na composição de Bromeliaceae (abundância, densidade,
biomassa, riqueza, diversidade, equitabilidade e similaridade de espécies)
em cinco zonas de restinga no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, na cidade
de Macaé, no Estado do Rio de Janeiro; na zona fechada pós-praia
(FPP), a banana-do-mato (Bromelia antiacantha) é a mais abundante, com
maior biomassa e quantidade de água reservada no interior do vaso; tendo
ocorrência também em zona de mata periodicamente inundada.
Segundo Teixeira et al. (2002), cinco espécies de anfíbios anuros
ocorrem em bromeliáceas na restinga de Praia das Neves, município
de Presidente Kennedy, sudeste do Brasil, as quais pertencem a quatro gêneros:
Aparasphenodon, Hyla, scinax e Trachycephalus. Aparasphenodon brunoi é a
espécie mais representada e é um anfíbio anuro que se esconde
durante o dia, principalmente dentro da bromélia-tanque (Aechmea lingulata),
lembrando que essa espécie está ameaçada de extinção
em diferentes habitats no Sudeste do Brasil, onde somente a proteção
da cobertura vegetal de seus ambientes naturais poderá garantir a existência
desse hilídeo nos próximos anos.
As bromeliáceas constituem um microhabitat para invertebrados. De acordo
com Mestre et al. (2001), num presente estudo, onde foi analisada a fauna associada à bromélia
Vriesea inflata, observou-se a dominância de Coleoptera Scirtidae, Diptera
e Hymenoptera Formicidae. Devido a grande riqueza e abundância de invertebrados
presentes no microhabitat bromelícola, principalmente formas imaturas, é possível
concluir que este escossistema é de fundamental importância tanto
para as comunidades que nele se desenvolvem como para a manutenção
da diversidade da Floresta Atlântica (MESTRE et al., 2001).
A família Bromeliaceae ainda carece de informações sobre
a biologia floral e sistema reprodutivo, principalmente considerando-se a riqueza
de espécies (Martinelli, 1997 apud FILHO & MACHADO, 2001). Uma revisão
recente de literatura sobre os sistemas de polinização em 192 táxons
de Bromeliaceae sugere que os principais polinizadores são beija-flores
(Martinelli, 1994 apud FILHO & MACHADO, 2001). O gênero Canistrum apresenta
a ornitofilia como principal síndrome de polinização, sendo
confirmada por alguns estudos de caso com espécies relacionadas (BUZATO,
1995). Canistrum aurantiacum é uma espécie esciófila, epífita
ou terrestre, componente do sub-bosque de mata e endêmica da Floresta Atlântica
dos Estados de Pernambuco e Alagoas (FILHO & MACHADO, 2001). Segundo Filho & Machado
(2001), foram registrados nessa espécie os beija-flores Glaucis chlorostilbon
aureoventris e Thalurania watertonii (Trochilinae), Glaucis hirsuta, Phaethornis
pretrei e P. ruber (Phaethornitinae); sendo considerado P. pretrei o principal
polinizador dessa espécie. Canistrum aurantiacum produz baixo número
de sementes por fruto nas autopolinizações em relação às
polinizações naturais promovidas pelos beija-flores. Pipra rubrocapilla
(Pipridae) e Tangara faustuosa (Thraupinae) foram observados dispersando os frutos
de C. aurantiacum. A ornitofilia predominante em Bromeliaceae tem sido interpretada
como mecanismo de evolução paralela entre bromélias e beija-flores.
Canistrum aurantiacum pode se caracterizar como um exemplo dessa estreita relação
(FILHO & MACHADO, 2001). Entre os Hymenoptera, as abelhas Partamona sp. (3
mm) e Plebeia sp. (2 mm) foram observadas na inflorescência de C. aurantiacum.
Estas abelhas pousam nas flores introduzindo a cabeça e o primeiro par
de pernas na corola para coletar o pólen, que em seguida é transferido
para as pernas medianas e destas para a corbícula no último par
de pernas, ou ainda retirando o pólen com as mandíbulas. A formiga
Ectatomma tuberculatum (Ponerinae) também foi observada em algumas inflorescências
de C. aurantiacum, não sendo, porém, identificada sua atividade
nas mesmas. Outros visitantes como mariposas (Hesperiidae, Lepidoptera) foram
observados, além de duas espécies de besouros (Curculionideae,
Coleoptera). Uma das espécies de besouro deslocava-se entrando e saindo
das flores; a outra de porte mais avantajado, introduzia a tromba no tubo floral
para coleta do néctar. Ambas poderiam ocasionalmente polinizar as flores,
uma vez que contatavam as anteras e o estigma (FILHO & MACHADO, 2001). Observou-se
a presença de grande número de ácaros (Ascidae), que utilizam
o pólen como parte de sua dieta alimentar. Estes se deslocam por toda
a inflorescência, sobretudo naquelas em que havia grande acúmulo
de água (FILHO & MACHADO, 2001).
De acordo com Beisiegel (2001), as bromeliáceas são uma fonte alimentar
rica, de modo que a espécie de quati Nasua nasua (Procyonidae), foi observada
realizando forrageamento em bromélias epífitas, numa proporção
de 90,6% das vezes que se observou os quatis comendo.
Segundo Tardivo & Cervi (1997), com a exploração constante
de seu maior ecossistema, além de interesse de colecionadores, atraídos
pelas inúmeras espécies ornamentais, as bromeliáceas correm
sério risco de desaparecimento e carecem de urgentes estudos e medidas
de conservação. Vítimas das devastações de
seus habitats naturais, perseguidas por serem acusadas de facilitar a proliferação
de insetos responsáveis pela transmissão de doenças como
a malária e a dengue, as bromeliáceas agora sofrem com esse reconhecimento.
Como plantas ornamentais alcançam bom preço no mercado e, por isso,
são colhidas predatoriamente. Além de contribuir para a extinção
de várias espécies, a coleta predatória coloca no mercado,
bromeliáceas em péssimo estado. Segundo a Sociedade Brasileira
de Bromélias, os exemplares colhidos nas matas dificilmente têm
uma aparência perfeita e trazem sempre as cicatrizes de sua interação
com o meio, diferente do que ocorre com as bromeliáceas cultivadas
em viveiros.
A inclusão de bromeliáceas não só nos jardins como
também em ambientes internos tem sido surpreendente. Isso significa que
a procura por espécies é cada vez maior, estimulando a coleta predatória.
A justificativa é uma só: a produção de bromélias
para comercialização é lenta e difícil, ou seja,
não compensa. O argumento, felizmente, parece que começa a desmoronar.
Iniciativas no sentido de provar que a produção é viável
começam a mostrar bons resultados. A razão para esse sucesso todo é muito
simples: bromélias são exóticas, bonitas, resistentes e
suportam um nível considerável de falta de cuidado. São,
por assim dizer, plantas ideais para pessoas que querem aliar a proximidade com
a natureza à falta de tempo para a ela se dedicar.
MATERIAL E MÉTODOS
O Município de Santa Vitória do Palmar localiza-se no ponto mais
extremo sul do Brasil, no Estado do Rio Grande do Sul, em uma área de
5.443 Km², composto por 33.296 habitantes, sendo 27.194 na área
urbana e 5.347 na área rural; tendo como via de acesso a BR-471. Limita-se
geograficamente ao norte com o Município de Rio Grande, ao sul com a
República Oriental do Uruguai e Município do Chui, ao leste com
o Oceano Atlântico e a oeste com a Lagoa Mirim. Distancia-se 508 Km da
capital gaúcha, Porto Alegre. Composta por um ambiente de formação
recente, solos muito planos, sem vegetação arbórea, rica
em recursos hídricos. A produção agropecuária é a
paisagem predominante da região, seja ela em extensos campos de bovinocultura
de corte ou em lavouras orizícolas.
Fig. 1 – Localização do município de Santa Vitória
do Palmar/RS, segundo Soluções em Posicionamento Global Ltda.
O levantamento das espécies de bromeliáceas do Município
de Santa Vitória do Palmar foi feito através de observação
e identificação das mesmas. A partir do estudo do mapa urbano
da cidade, delimitou-se os quatro pontos extremos do município e a parte
central como área de estudo. De acordo com o mapa, ficou delimitado
como ponto 1, BR 471 (via Chui); ponto 2, BR 471 (via Rio Grande); ponto 3,
Rural; ponto 4, Aviação e ponto 5, o centro da cidade. Além
da observação e identificação das espécies,
este trabalho utilizou-se de revisão bibliográfica, conforme
os documentos citados nas referidas bibliografias.
RESULTADOS
E DISCUSSÃO
As espécies identificadas no Município de Santa Vitória
do Palmar foram: Ananas microstachys Lind, Bromelia antiacantha Bert, Tillandsia
aeranthos (Lois.) L. B. Smith e Tillandsia usneoides L. De acordo com os pontos
delimitados, foram identificadas no ponto 1 (BR 471), ponto 2 (BR 471) e ponto
3 (Rural), as espécies Ananas microstachys, Bromelia antiacantha e Tillandsia
aeranthos; no ponto 4 (Aviação), as espécies Ananas microstachys,
Bromelia antiacantha, Tillandsia aeranthos e Tillandsia usneoides e no centro
da cidade a espécie Tillandsia aeranthos.
Segundo Reitz (1983), o gênero Ananas Linnaeus em qualquer de suas espécies é digestivo
de primeira ordem, especialmente para os dispépticos. Como supurativo é utilizado
nos casos em que se exige a extração de pus. Usa-se como antidiftérico
em alguns casos de doenças da garganta; tem a propriedade de dissolver
as membranas mórbidas da laringe. O suco das frutas é preconizado
como peitoral nas bronquites; desenvolve ação benéfica
contra o catarro das mucosas. O fruto imaturo além de ser excessivamente ácido é tido
por abortivo e vermífugo. O fruto verde, como também o maduro, é utilizado
nos casos de retenção de urina e nas dores dos rins (cálculos).
Finalmente, é indicado nos casos de tuberculose pulmonar, icterícia
e hidropsia.
A espécie Ananas microstachys Lind (Fig. 3); conhecida popularmente
como gravatá, caraguatá, ananá e ananá selvagem é uma
planta perene, espinhenta, quase acaule, medindo 80-120 cm de altura, com reprodução
por sementes e através de curtos rizomas (LORENZI, 1991). As folhas
são dispostas em roseta, coriáceas, canaliformes, com margens
aculeadas ou espinescentes, com os espinhos voltados para cima, em número
de 25-50; medem 80-120 cm de comprimento; quando em floração
as folhas centrais (brácteas) apresentam coloração vermelho-sanguínea
(LORENZI, 1991). A inflorescência é central e vertical, em densa
espiga de 10-20 cm de comprimento no ápice de uma haste floral de 30-40
cm de altura. As flores são roxas e sésseis. É uma planta
daninha, medianamente freqüente, infestando pastagens, beira de cercas,
margens de estradas e terrenos baldios. É particularmente freqüente
nas pastagens do Estado do Mato Grosso do Sul. Apresenta grande vigor, formando
verdadeiras barreiras impenetráveis (LORENZI, 1991). Seu fruto é comestível
e medicinal. O fruto é digestivo, supurativo, sendo útil contra
dispepsia, difteria e outras enfermidades da garganta; o suco é vermífugo,
abortivo, sendo também empregado contra bronquites, acidez do estômago
e catarro das mucosas (LORENZI, 1991).
Fig. 3 – Espécie Ananas microstachys identificada no município
de
Santa Vitória do Palmar/RS.
O gênero Bromelia Linnaeu apresenta inflorescência séssil
ou escaposa, em geral composta; flor com sépalas livres, obtusas, raramente
mucronadas; pétalas raramente com unha definida, unidas em tubo pelos
filamentos mas com margens livres, sem apêndices, geralmente carnosos;
estames inclusos, filamentos formando um tubo de comprimento variado de acordo
com a espécie; tubo epígino conspícuo até quase
faltando; fruto suculento, relativamente grande; sementes poucas a muitas,
planas, nuas; ervas em geral terrestres ou raramente epífitas, espalhando-se
por rizomas ou brotos; folhas geralmente rosuladas, com espinhos grandes, curvos
ao longo das margens (REITZ, 1983).
A espécie Bromelia antiacantha Bert (Fig. 4); é uma planta terrestre,
de até dois metros de altura, caule curto, espesso com ápice
folioso. Folhas numerosas, dispostas em roseta, densamente cobertas de espinhos
nas margens (CORDAZZO & SEELIGER, 1995). Bainha larga, mas curta, triangular-ovada,
internamente coberta de grande tomento paliáceo, densíssimo,
ferrugíneo; lâmina rijamente ereta, no ápice pouco recurva,
canaliculada, densamente coberta de espinhos nas margens, que na base estão
dirigidos para baixo, virando-se, numa certa altura, de repente, para cima;
fortíssimos aduncos, castanhos ou amarelo-esverdeados; no ápice,
provida de acúleo grande pungentíssimo, em cima verde, embaixo
levemente branco-escamada (REITZ, 1983). Inflorescência emerge do centro
das folhas, densamente lanuginosa, composta de muitos ramos e quando imaturas
e amarelas quando maduras, semelhantes a pequenas bananas, as quais são
comestíveis e saborosas; folíolos semelhantes às folhas,
mas de bainha maior; ráquis grossa, cilíndrico-compressa; ramos
semelhantes à ráquis, mais delgados porém; brácteas
primárias semelhantes às bainhas dos folíolos, brancas,
menos tomentosas para o ápice; brácteas secundárias pequenas,
largamente ovadas, agudas, membranáceas, estriadas, brancas, pouco côncavas;
flores bastante variadas quanto ao comprimento, e grande pedicelo cilíndrico,
de até 10 milímetros de comprimento quando perto da base dos
ramos; sépalas brancas, tomentosas, livres até a base, ápice
arredondado, bem simétrico; pétalas purúrea-violáceas,
oblonga-lanceolada, obtusas, de margens involutas; estames 10 milímetros
menores que as pétalas; filamentos em cima compresso-assovelados, embaixo
muito alargados e concrescidos em tubo com a corola; anteras lineares, acuminadas,
de base sagitada e dorsifixas; grãos de pólen lisos, sem poros;
ovário densamente albo-tomentoso, estreitamente ovado-subcilíndrico,
estreitado para o ápice; estilete grosso, branco, quase da mesma altura
das anteras; estigmas oblongos, obtusos, com lóbulos papilosos, brancos;
placentas ocupando o ângulo interno dos lóculos; óvulos
bem distanciados entre si, afixos horizontalmente, não caudados; baga
até cinco ou mais centímetros de comprimento, amarela, ovóidea,
comestível, medicinal (REITZ, 1983). Segundo Reitz (1983), os frutos
cozinhados e chupados são tomados como valioso remédio contra
a tosse. Assim fazem os campeiros do Rio Grande do Sul e os índios Bororos.
Cozidos não atacam tanto a boca e a garganta. As sementes são
mucilaginosas (REITZ, 1983). Os mesmos frutos são tidos por antielmínticos
e por isso usados contra a opilação em geral. O sumo deles tem
ainda o efeito de atacar e destruir os tecidos decompostos, deixando uma chaga
completamente limpa, pelo que é preconizado vulnerário nos casos
de aftas e de todas as afecções da mucosa. Extrai-se igualmente
um saboroso xarope usado no tratamento de cálculos renais (REITZ, 1983).
O cacho é muito usado em arranjos decorativos nas festas e celebrações.
Florescem de setembro a janeiro e frutificam de janeiro a março (CORDAZZO & SEELIGER,
1995).
Desenvolve-se principalmente nos solos úmidos das restingas ou da vegetação
secundária, ocorrendo de forma descontínua do sul do Brasil até o
Uruguai (CORDAZZO & SEELIGER, 1995). Segundo Reitz (1983), é encontrada
muito freqüentemente nas florestas das planícies quaternárias
da costa, bem como nas planícies aluviais e mais raramente em solos
rochosos das encostas, em altitudes compreendidas desde praticamente o nível
do mar (restinga) até a borda oriental do planalto (pinhais), a 800
metros. Forma densos agrupamentos, entre os quais pequenas aves costumam nidificar. É considerada
uma planta ornamental (CORDAZZO & SEELIGER, 1995). Das folhas extrai-se ótima
fibra para muitos fins industriais, como cordoaria, etc. (REITZ, 1983).
De acordo com Reitz (1983), não obstante as folhas estarem dispostas
em roseta não forma uma cisterna capaz de reter maiores quantidades
de água entre o imbricamento das folhas. Trata-se, portanto, de espécie
com menos de 0,1% de positividade, ou seja, menos de um indivíduo positivo
em mil pesquisados, não tendo pois valor endemiológico para a
região estudada (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul).
Segundo Silva (1999), o gênero Tillandsia Linnaeus pertence ao grupo
das bromeliáceas que produzem frutos secos. De acordo com Reitz (1983),
os frutos apresentam cápsula septicida. Com sementes leves, dotadas
de filamentos que facilitam o transporte pelo vento. São eretas, estreitamente
cilíndricas ou fusiformes com um penacho basal, reto e branco (REITZ,
1983). Possui 400 espécies; destas, cerca de 50 são conhecidas
no Brasil. As folhas têm bordas lisas e são recobertas por lanugem
ou escamas alvacentas. São plantas de pequeno porte e hábito
exclusivamente epifítico. Segundo Reitz (1983), a inflorescência é variada,
geralmente com espigas dístico-florais ou às vezes reduzida a
uma espiga polístico-floral com apenas uma flor pela redução
das espigas a uma flor ou raramente toda a inflorescência reduzida a
uma simples flor. Brácteas florais conspícuas a mínimas.
As flores azuis surgem entre as brácteas róseas (SILVA, 1999).
De acordo com Reitz (1983), são perfeitas, em geral curto-pediceladas.
Sépalas convolutas, geralmente simétricas, livres ou igualmente
ou posteriormente concrescidas. Pétalas livres, nuas. Estames de vários
comprimentos em relação às pétalas e ao pistilo.
Ovário superior glabro. Óvulos geralmente muito caudados.
A espécie Tillandsia aeranthos (Lois.) L. B. Smith (Fig. 5), é uma
planta epífita, conhecida como cravo-do-mato, apresenta caule curto,
de 15 a 20 centímetros de altura, provida de rizoma forte (REITZ, 1983).
Folhas numerosas, cobrindo densamente o caule, sendo as exteriores arcadamente
decurvas, as médias e interiores suberetas, triangulares, estreitando-se
da base para o ápice (CORDAZZO & SEELIGER, 1995). De acordo com
Reitz (1983), as folhas desenvolvem-se espiraladamente ao longo do caule, não
formando um receptáculo e conseqüentemente não acumulando água;
não pertencendo aos criadouros de mosquitos transmissores de doenças.
Bainha evidente, curta, membranáceo-transparente, subescamada; lâmina
estreitamente triangular, estreitando-se desde a base até o ápice
(REITZ, 1983). Inflorescência em forma de cacho simples, com flores violáceas
envolvidas em brácteas róseas ou púrpuras (CORDAZZO & SEELIGER,
1995). É densamente cilíndrica, com ápice arredondado;
folíolos membranáceos, belamente róseos, largamente obovados,
longamente acuminados, pouco escamados, mas densamente logo abaixo da ponta,
subinflada e imbricadamente envolvem o escapo, com ponta cilíndrica
e densamente escamada; ráquis glabérrima, angulada, quase reta;
brácteas belamente róseas ou purpuráceas, largamente linear-ovais,
de ápice arredondado-mucronado, bem côncavas, não carinadas,
glabras, proeminentemente venenosas (REITZ, 1983). Florescem na primavera (CORDAZZO & SEELIGER,
1995). Flores belamente violáceas, eretas e sésseis; sépalas
róseas ou avermelhadas; pétalas pouco agudas ou arredondadas;
estames menores que as pétalas; filamentos lineares, bem ondulados,
largamente lineares, obtusos de ambos os lados, afixas e incisas quase na base;
grãos de pólen grossamente elípticos ou subglobosos, profundamente
sulcados, regularmente reticulados; ovário ovoídeo, triangular,
estreitado pelo ápice em estilete; estigma maior que as anteras, com
lóbulos curtos, eretos, não contortos; placentas afixas no ângulo
interno dos lóbulos perto da base; óvulos em grande número,
cilíndricos, de ápice obtuso, não caudado; cápsula
subclavada, apiculada, com rudimentos do estilete; valvas deiscentes até a
base, pouco ou nada tortas; exocarpo cinzento, pouco rugoso, não destacado
do endocarpo fosco-brúneo, polido; sementes fusiformes, castanhas, no ápice
com ponta mínima, e na base com pêlos brancos, sedosos,
terminados em cabeleira umbeliforme (REITZ, 1983).
Distribui-se no Brasil meridional, Paraguai, Uruguai e Argentina. É utilizada
como planta ornamental e na medicina popular (CORDAZZO & SEELIGER, 1995).
Segundo Reitz (1983), além de diurética, é utilizada
no combate a blenorragia.
Fig. 5 – Espécie Tillandsia aeranthos,
identificada no município de Santa Vitória do
Palmar/RS.
A espécie Tillandsia usneoides L. (Fig. 6), é uma erva epífita,
conhecida como barba-de-velho, pendente das árvores, geralmente sem
raízes, de um ou mais metros de comprimento (CORDAZZO & SEELIGER,
1995). Caule filiforme, curvado, planamente compresso, densamente coberto de
grandes escamas, produzindo um número indeterminado de ramos curtos,
formando fascículos de duas a três folhas (REITZ, 1983). Folhas
formando em geral, um denso emaranhado de coloração cinzenta
que chama a atenção de longe pelo tamanho dos agrupamentos (CORDAZZO & SEELIGER,
1995). Bainha máxima, amplexicaule, concrescida pelas margens quase
até o ápice, formando um tubo em cima, no ápice subtruncada,
bem escamada; lâmina subpatente ou recurvada, densamente escamada, filiforme-cilíndrica,
longamente aguda, palidamente esverdeada; inflorescência sempre unifloral;
brácteas florais naviculares, de bordos glabros, dorso escamado, com
ponta no ápice; flores com pedúnculo; sépalas paláceas,
convolutas, cartáceas; pétalas amareladas, de base linear mudando-se
sensivelmente em lâmina estreitamente oval, aguda ou arredondada; estames
menores que as pétalas; filamentos filiformes; anteras lineares, palidamente
amareladas; grãos de pólen globosos, levemente sulcados e reticulados;
ovário elipsóide, com ápice subitamente contraído
em estilete grosso; estigma da metade do comprimento dos filamentos, obtusos,
não contorcidos; placentas afixas no ângulo interno dos lóculos,
junto à base; óvulos poucos, grossamente clavados, de ápice
obtuso e cauda plana; cápsula subcilíndrica, rostrada; valvas
deiscentes até a base, espiraladamente tortas; exocarpo paleáceo,
separado do endocarpo fosco-castanho, envernizado; sementes castanhas, fusiformes,
de ápice brevemente agudo dotado de pequena cauda, base longamente atenuada,
com pêlos, sedosos, munidos de cabeleira em forma de penacho (REITZ,
1983). Como epífita ocorre fixada principalmente nos ramos das árvores
expostas aos raios solares, mas situadas em áreas úmidas, onde
existe elevada evaporação. Floresce de outubro a março
(CORDAZZO & SEELIGER, 1995).
Segundo Reitz (1983), no Brasil esta espécie é encontrada nos
Estados do Pará, Maranhão, Ceará, Paraíba, Pernambuco,
Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo,
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Epífita presente
nas áreas úmidas desde o sudeste dos Estados Unidos até o
centro da Argentina e Chile.
De acordo com Reitz (1983), é usada na terapêutica popular. Pela
contusão se obtém um suco adstringente. Incorporando este suco à matéria
graxosa, por exemplo, manteiga de cacau, ou banha, é usado em supositórios
em casos de hemorróidas. Para o mesmo fim usa-se a planta pisada e misturada
com banha formando um útil ungüento. O decoto é usado como
eficaz nos engorgitamentos do fígado e no combate ás hérnias. É utilizada
para enchimento de colchões e estofados, bem como em condicionamento
de louças (CORDAZZO & SEELIGER, 1995). Segundo Reitz (1983), os
assentos dos carros Ford americanos, em 1930, eram estofados com barba-de-velho,
abundante no Estado da Flórida. Algumas aves utilizam-na para construção
de ninhos (CORDAZZO & SEELIGER, 1995). Não é capaz de reter
depósitos de água, não sendo por isso criadouro de mosquitos
transmissores de doenças (REITZ, 1983).
Fig. 6 – Espécie Tillandsia usneoides, identificada no
município de Santa Vitória do Palmar/RS.
Das espécies identificadas na área urbana de Santa Vitória
do Palmar a Bromelia antiacantha foi a mais encontrada, e de acordo com a Listagem
das Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção no
Rio Grande do Sul, aprovada pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONSEMA),
a espécie Tillandsia aeranthos, encontra-se em perigo de extinção
e a espécie Tillandsia usneoides, encontra-se vulnerável a extinção.
O maior problema dessas espécies é que elas estão tendo
seus habitats destruídos. No caso das plantas endêmicas, que nascem
apenas em um determinado local com condições adequadas, qualquer
alteração pode significar a morte de uma comunidade inteira.
Já para as espécies de campo, a principal ameaça é o
uso do fogo. A extração e a exportação são
responsáveis pela ameaça de extinção das bromeliáceas.
Segundo o CONSEMA, a partir da Lista de Espécies Ameaçadas será montada
uma estratégia de proteção, para que essas não
sejam extintas definitivamente.
CONCLUSÕES
As bromeliáceas funcionam como ampliadoras da biodiversidade, pois o
fato de terem as folhas espiraladas, em forma de vaso, faz com que armazenem
a água da chuva e umidade, tornando alguns animais e algumas espécies
de vegetais dependentes direta e indiretamente das bromeliáceas para
sobreviver.
No município de Santa Vitória do Palmar devido à economia
local, voltada para a produção orizícola, a devastação
tem sido elevada, pois o fato das bromeliáceas terrestres da região
formarem verdadeiras cercas vivas nos campos produtivos, os agricultores retiram-nas
para aumentar a área de plantação. Com isso a biologia
local vai se modificando com o tempo, pois espécies de animais e até de
vegetais que dependem dessas bromeliáceas, não encontram mais
seus refúgios de proteção e sobrevivência, tendo
que migrarem para outros locais. E, com isso, espécies de animais que
freqüentemente eram vistos nestes locais, hoje, raramente são avistados. A aviação agrícola, utilizada durante a plantação
do arroz também é outro fator que altera a biodiversidade local,
pois devido ao uso excessivo de agrotóxicos, acabam prejudicando o desenvolvimento
dos frutos de espécies como o Ananas microstachys e Bromelia antiacantha.
E os frutos já maduros se contaminam, tornando-se prejudiciais a quem
venha consumi-los.
No ambiente natural, as bromeliáceas representam um elemento importante
de manutenção da vida, pois ocupam terrenos estéreis que
outras plantas rejeitam e sua arquitetura foliar serve como elemento de sustentação
da vida. Mas, no momento em que são retiradas de seu habitat natural,
devido à ação antrópica, e levadas para o meio
urbano, acabam causando um desequilíbrio ecológico. O principal
deles é a crescente comercialização para fins ornamentais,
dada a sua beleza natural. As bromeliáceas são facilmente encontradas
expostas em jardins residenciais, tornando-se, assim, criadouros artificiais
de formas imaturas de insetos transmissores de doenças; onde diversos
estudos comprovaram que a maior incidência de bromeliáceas como
criadouro artificial foi constatada na zona urbana. Portanto, quando as bromeliáceas
são retiradas de seu habitat natural e levadas ao meio urbano, vêm
com todo o seu potencial de sustentação da vida e acabam causando
desequilíbrio ecológico.
A criação de um projeto de preservação das bromeliáceas
torna-se importante, pois além de serem fundamentais para a qualidade
de vida ecológica, também contribuem para os seres humanos devido
sua ação medicinal; prolongando e beneficiando a biodiversidade,
deixando assim, o meio ambiente habitável para as futuras gerações
de seres vivos.
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