SANTA VITÓRIA DO PALMAR -RS-BRASIL
O Litoral Sul do Rio Grande do Sul caracteriza-se
pela ampla faixa costeira retificada, formando uma única grande
praia arenosa, limitada ao norte pelo estuário da Laguna dos
Patos e ao sul pelo estuário
do arroio Chuí, fronteira com a República do Uruguai.
Duas grandes lagoas existem na região: a Lagoa Mirim e a Lagoa Mangueira,
associadas as quais estende-se um complexo sistema de banhados, áreas úmidas
e pequenas lagoas isoladas, além de algumas matas de restinga.
Esta região destaca-se pela importância dos banhados e áreas úmidas
marginais, com uma macrofauna bastante diversificada, especialmente de aves
aquáticas.
Várias espécies de aves que no Brasil ocorrem exclusivamente
no extremo sul tem nesta região as principais áreas de reprodução,
alimentação e refúgio para muda (desasagem), incluindo
espécies raras, ameaçadas, migratórias ou de grande interesse
cinegético .
Do ponto de vista biogeográfico, esta região corresponde ao limite
sul da distribuição das formações arbóreas
de restinga, com um fisionomia bastante particular e uma flora já essencialmente
pampeana, condicionada pelo clima local temperado, contrastando com a influência
tropical que passa a predominar a partir do litoral norte do Rio Grande do
Sul.
Os ecossistemas dominantes são as lagoas e banhados, praias arenosas,
dunas frontais e lacustres, campos , matas de restinga e butiazais.
A biodiversidade da região é bem conhecida, ainda que a maioria
dos estudos realizados tenham se concentrado na área do Banhado do
Taim.
Vários autores estudaram aspectos da gênese, estrutura e vegetação
do complexo de ambientes de restinga da planície costeira (ver sínteses
sobre o tema em Schwarzbold e Schäfer 1984, Vieira e Rangel 1988, Waechter
1985) ou mais especificamente nas lagoas costeiras do Rio Grande do Sul e banhados
associados (Irgang e Gastal 1996, Lanzer e Schäfer 1984, Schäfer
1982, Schäfer et al. 1983).
Mais de trinta artigos e notas cobrem diferentes aspectos da avifauna da
região,
principalmente na Estação Ecológica do Taim e em ambientes
marinhos ou praiais.
A dinâmica atual dos ecossistemas de banhados tem recebido pouca atenção
e é prioritária, dada a pressão pela demanda de água
para a orizicultura e pela alteração do regime hidrológico
pelas obras de irrigação e drenagem.
A região apresenta ainda uma grande diversidade de ecossistemas, fauna
e flora, porém já perdeu elementos importantes.
A maior parte da megafauna típica da região está extinta,
incluindo por exemplo a onça-pintada (Panhtera onca), o cervo-do-pantanal
(Blastoceros dichotomus) e o veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus), Tamanduá Mirim,
mencionadas por antigos viajantes dos séculos XVIII e XIX mas sem
registros modernos.
Aves como a extinta ararinha-azul (Anodorhinchus glaucus) possivelmente ocuparam
os palmares de butiá na região (Collar et al. 1992).
É
provável que outros elementos da avifauna e mastofauna tenham se extinguido
localmente, antes mesmo de sua ocorrência ser registrada. O maior elemento
da fauna que persiste na região é a capivara (Hidrochaeris
hidrochaeris).
Quanto à flora, não existem registros de extinção
local de espécies, entretanto, são ainda escassos e recentes
os estudos detalhados na região para que uma avaliação
mais criteriosa possa ser feita. Por outro lado, a região abriga inúmeras
espécies raras e ameaçadas, como o lagarto Liolaemus occipitalis,
o jacaré-do-papo-amarelo (Caiman latirostris), o cisne-do-pescoço-preto
(Cygnus melancoryphus), a capororoca ou cisne-branco (Coscoroba coscoroba)
e as orquídeas Cattleya intermedia e C. Tigrina.
Entre as plantas de interesse especial , ocorrem na região várias
espécies de campos litorâneos, dunas e restingas, como Eryngium
divaricatum, Ilex dumosa, Ephedra tweediana, Androtricum trigynum, Regnellidium
diphyllum e Iodina rhombifolia.
A Lagoa Mirim é repovoada com alevinos de várias espécies
de peixes nativos (jundiás, traíra, peixe-rei e outras) e exóticos
pela colônia de pescadores.
A pesca é também praticada na Lagoa Mangueira.
Deve-se ainda destacar a situação dos anatídeos de maior
valor cinegético, incluindo o marrecão (Netta peposaca), a marreca-piadeira
(Dendrocygna viduata), a marreca-caneleira (Dendrocygna bicolor) e a marreca-parda
(Anas georgica), entre outras, que ocupam principalmente os banhados e áreas úmidas
fora da Estação Ecológica, como os banhados do arroio
Del'Rey e outros nas margens da Lagoa Mirim, que não estão
protegidos e sofrem os impactos diretos da orizicultura.
Os principais vetores de pressão sobre a biodiversidade desta região
são os associados à orizicultura e a pecuária.
A maior parte dos solos já está ocupada por lavouras de arroz.
Os banhados e matas de restinga são os ecossistemas mais destruídos,
praticamente não restando áreas intactas fora do Banhado do Taim.
O regime hidrológico foi alterado em toda a região, incluindo
as lagoas Mirim e Mangueira e o Banhado do Taim, pela retirada de água
para irrigação e pelas obras de construção de sistemas
de irrigação (canais de drenagem, levantes, barragens). As lagoas
e banhados sofrem também os impactos da contaminação por
agrotóxicos.
Existem também conflitos da orizicultura com a conservação
de aves aquáticas e fauna dos banhados e lagoas em geral em função
do envenenamento das aves consideradas pragas (anatídeos e icterídeos).
A caça furtiva de aves, mamíferos e jacarés também é pratica
corrente.
Não existem avaliações quantitativas destes impactos.
As matas de restinga quase desapareceram em função da expansão
da agricultura. Anteriormente foram também intensamente derrubadas
para fornecimento de lenha para os levantes de água, principalmente
ao longo do Canal São Gonçalo.
Os remanescentes são utilizados como abrigo pelo gado, tendo sua regeneração
comprometida pelo pastoreio.
Os palmares de Butia capitata, formações arbóreas savanícolas
típicas da restinga, foram praticamente exterminados na região,
não restando fragmentos dignos de nota e não estando protegidos
nas unidades de conservação existentes, configurando-se assim
como os ecossistemas em situação mais crítica.
A maior parte das extensas áreas inundáveis originais foram convertidas
em campos e lavouras, restando apenas os banhados permanentes que margeiam
as lagoas, também pressionados pela expansão das lavouras.
O Banhados do arroio Del'Rey, entre as Lagoas Mirim e Mangueira já reconhecido
como importante local de refúgio para aves aquáticas, está praticamente
isolado por lavouras de arroz e impactado pela retirada de água para
irrigação e obras de engenharia correspondentes (levantes d'água,
canais, drenos).
Falésias na margem nordeste da Lagoa Mirim é um Ecossistema peculiar
e raro na região , também muito ameaçado.
A planície à oeste da Lagoa Mirim é a parte mais impactada,
praticamente sem remanesces dos ecossistemas típicos da região.
A Estação Ecológica do Taim,
apesar da grande extensão,
não é um ecossistema funcionalmente íntegro, necessitando
de ações de manejo para sua conservação. Existem
conflitos importantes com a atividade agrícola em função
da retirada de água da Lagoa Mangueira. O regime hídrico está também
alterado pela construção da BR-101 e por uma comporta construída
para regular a vazão da Lagoa Mirim através do banhado do Taim.
Outros problemas incluem a invasão de gado, queimadas e o atropelamento
de animais ao longo da BR-101, todos atualmente em vias de controle.
Outros impactos freqüentes são o atropelamento de fauna na área
do banhado do Taim e arredores, invasão da Estação Ecológica
pelo gado, incêndios e caça furtiva.
Na faixa praial, os principais vetores de pressão são o florestamento
das dunas e campos arenosos com espécies exóticas, principalmente
Pinus e a prática da pecuária extensiva.
. Os ecossistemas da orla - praias e dunas, são os menos impactados.
As praias e dunas são os ecossistemas mais bem conservados na região,
com exceção do setor que abrange o balneário do Hermenegildo,
onde a ocupação urbana se da sobre o cordão de dunas
primarias, e a praia da Barra, próximo ao Arroio Chuí ,onde
existem problemas com esgoto e o lixo. A praia do Hermenegildo, no extremo
sul, apresenta uma
alta taxa de regressão (100 a 200m em 22 anos), sem uma compreensão
exata das causas.
Entre as atividades de maior impacto potencial citam-se, além das já mencionadas
acima, o lazer e o turismo. Estas últimas não pelas tendências
atuais, mas pelo risco de repetição, em especial no balneários
de Hermenegildo e Praia da Barra, de modelos inadequados de utilização
das praias, evidenciados em outras regiões.
Santa Vitória do Palmar apresenta um Plano Básico Ambiental
em nível municipal.